Por: Matheus Gomes, colunista do Esquerda Online

Mais uma vez, o Haiti vive dias de fúria popular. As ruas de Porto Príncipe e das principais cidades como Les Cayes, Cabo Haitiano, Jeremias e Grande Enseada, foram tomadas por manifestantes contrários ao aumento de até 51% no preço dos combustíveis, anunciado na última sexta-feira. Para além do setor de transporte, o reajuste draconiano atinge o abastecimento de energia da população, já que grande parte necessita do querosene para ter acesso à iluminação básica e cozinhar. O reajuste equipararia o preço do salário mínimo diário – U$ 5 – com o valor do galão do querosene, o que só agrava a crise social num país onde a super-exploração é regra e 14% da população sequer possui emprego.

Correspondentes internacionais descrevem a situação do país como “insurrecional”: barricadas nas ruas, repressão policial, saques e destruição de lojas e supermercados, incêndio de carros e uma forte greve geral convocada pelos trabalhadores do transporte compõe o quadro da crise política e social na ilha. A Polícia Nacional do Haiti chegou a aquartelar-se, já que não tinha como controlar as ruas. Mesmo assim, o número de mortos já se aproxima de dez vítimas desde o início das manifestações, reafirmando o caráter violento das forças policiais haitianas treinadas pela Minustah (ONU).

A medida é parte do plano de ajustes do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a América Latina, que também prevê a privatização completa da estatal responsável pela energia elétrica do país, entre outras contrarreformas sociais. Entretanto, o presidente Jovenal Moise e o primeiro-ministro Jack Guy Lafontant, do Partido Tèt Kale, foram obrigados a revogar o aumento no último domingo, o que não foi suficiente para arrefecer as mobilizações, que agora exigem a renuncia de ambos os políticos que também estão envolvidos em diversos casos de corrupção, principalmente entorno do dossiê conhecido como Petrocaribe. É importante lembrar que Moise, empresário e produtor de bananas, assumiu o governo depois de uma crise que durou quase um ano e meio, alimentada por diversos questionamentos ao resultado das urnas, que tiveram participação de menos de 20% da população.

O início da semana foi marcado por uma forte greve geral convocada pelo setor de transportes. Segundo os correspondentes da Telesur, poucas pessoas caminhavam pelas ruas na segunda-feira, bem como a circulação de ônibus e carros era quase zero. Nessa terça-feira, a greve continuou, porém, com maior presença das forças policiais nas ruas na tentativa de desmontar as barricadas e retomar a “normalidade” esmagando a mobilização. As dificuldades de organização no Haiti são gigantescas devido a situação de extrema exploração e a repressão violenta do governo e das forças internacionais, entretanto, os últimos dias estão demonstrando que o povo haitiano ainda possui uma imensa capacidade de reinventar suas formas de solidariedade e mobilização para resistir a recolonização do país.

A verdade é que a primeira ilha a se libertar do julgo da escravidão no continente americano vive as agruras da perda de sua soberania e da espoliação de suas riquezas, ações conscientes de um imperialismo movido pelo ressentimento racista, que nunca permitiu que o povo haitiano decidisse os rumos do país de forma autônoma. A ocupação militar dirigida pelo Brasil não alterou em nada as condições do país, pelo contrário, serviu de proteção para a implementação das maquiladoras da indústria têxtil imporem regime semi-escravo aos trabalhadores locais. As forças militares se mostraram incapazes de reconstruir o país depois do terremoto de 2010 e ainda foram as responsáveis por exportar uma trágica crise de cólera no país. Hoje, a economia haitiana é completamente controlada por agentes internacionais de diversos países, que vão do capital brasileiro, canadense e francês, até a ingerência de sul-coreanos e vietnamitas. A situação de migração em massa para países como o Chile e o Brasil reflete o desespero de quem não vê expectativas de construir uma vida digna em seu país. A forma de retomar a dignidade e a soberania é pela organização e mobilização popular, além do necessário desenvolvimento de uma ampla rede de solidariedade internacional que possa auxiliar na reconstrução do Haiti.

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